As seis horas


Na primeira hora a dor existia, mas não se manifestou. Após o almoço, Marreta estendeu as pernas sobre a almofada amarelada do suor acumulado pela sua transpiração nos dias quentes daquele lugar meio sertão meio litoral. Era outubro. Um vento vestido de areia sonorizava os telhados das casinhas estendidas a 8 quilômetros da cidade. A mãe cuidava de coisas intermináveis na cozinha. A irmã atendia, na sala transformada em venda, uma senhora com uma menininha. O pai conversava na calçada com o esposo da senhora com a filha. Pipoca chegava preguiçoso, mal abanava o rabo e tornava-se o dono da sala e daquelas pernas estendidas na almofada. Marreta acolheu o dono da sala com uma carícia no seu pelo abundante e foi retribuído com uma salivada na orelha esquerda. Marreta acolhia também a primeira hora da sua dor. Ao seu redor o tempo não lhe trazia novidades a não ser uma poeira fina que se acumulava na estante onde residia há dois anos um Luzia-Homem de capa maltratada. O tempo lhe absorvia em detalhes domésticos e o cumulava de olhares para todo canto da casa. Um Sagrada Família reinava na porta que dava para a cozinha. O ramo ressequido de palha de coqueiro dividia o punho de uma rede no armador. O casal no retrato parecia reclamar do aperto da moldura. O vaso em detalhes de cor de prata servia apenas de peso das revistas “Sentinela” na parte média da estante entre a TV e um antigo aparelho de DVD. Marreta ainda não sentia nada naquela primeira hora porque ainda era a primeira hora. A sala era seu mundo naquele instante primeiro. Ainda não havia espaço para a dor. As coisas da sala eram planetas girando na órbita de um sol chamado Marreta. As coisas da sala, aos poucos, o coisificavam também. Ele era aquela estante polvilhada de finíssima areia. Ele era o armador bento pelo ramo da procissão que movia na fé e na força os punhos da rede. Ele era o livro isolado no nicho acima da TV. Ele era a TV. Era o Menino-Jesus da Sagrada Família enlaçado por uma faixa de palavras em latim e que olhava através da vidraça da moldura para ser reprendido por José e Maria: “Menino, sai da janela”. Pensando bem ele era até mesmo o Pipoca derrotado pelo sono e despreocupado com o mundo lá fora.

Na segunda hora nada aconteceu além da palidez do tempo sem ventos como se o microuniverso de Marreta hermeticamente se fechasse e se confinasse numa redoma camuflada de estufa.

Na terceira hora o cheiro de café incensou todos os cômodos e suspirava pelos frechais como um fantasma de uma serpente bamboleante querendo alcançar o céu. Marreta se descoisificava de tudo e voltava a ser homem. A dor lhe chegava sorrateira. A mãe conseguiu sair da cozinha para servir o café ao marido que desta vez conversava com um vendedor de espelhos. Voltou para pegar outra xícara de café. Marreta pegou uma caneca e disse um “beleza” ao passar pela mãe no corredor.  “Vai querer pão, meu filho?” - gritou da cozinha, a mãe.  “Não, aqui já tá beleza”. Foi à janela em busca da dor. Pôs a xícara de vidro transparente no vão e olhou para o tempo e ele estava amarelo. O diálogo foi calmo, apesar das seriguelas caírem no chão violentamente. Olhou para a árvore como se a repreendesse por não ter sustentado as seriguelas. Já o cajueiro foi falso e bailava no vento sem deixar cair um fruto. O tempo estava ali, depois da janela, e se vestia de vento. Um vento que chegava para esfriar o café de Marreta. Para esfriar os lábios de Marreta. Esfriar seu olhar. Esfriar-lhe a alma.

Na quarta hora um José Augusto tocava um romantismo doce e triste. Pardais se retiraram do alpendre. O pai entrou e foi para a sala. A irmã foi para a sala também. A mãe já estava na sala. O vento deixou de circular embora uma frieza continuasse na alma de Marreta. Certa frieza que também era incerteza: “será que ele vem?”. “Acho que não” respondia as nuvens tingidas de raspão por um amarelo do sol que se despedia daquele lado do Planeta. “Acho que sim” falavam dois ratos que desfilavam nas linhas de carnaúba do alpendre. “Acho que não” gritavam os pinheiros-roxos que circundavam a casa. Na van que passava na estrada em frente a casa, alguns passageiros disseram “sim, ele vem”. Dois estudantes por ali chegaram e olhando para Marreta disseram “não, o rei não vem”. Lembrou-se logo da oração de Santa Rita e lançou o sinal-da-cruz contra o vento. Este deu uma risada estalante fazendo vergar os eucaliptos do outro lado da estrada. Marreta não sorriu e assumiu a dor infinita daquela tarde efêmera.

Na quinta hora, Marreta esperava a chegada do rei ansiosamente. Quando ele chegasse e lhe desse o sinal, Marreta queimaria as lamparinas. A fumaça branca o proclamaria eleito e ao convite do vento juntaria as tralhas para ir embora para o Rio de Janeiro por que assim o fez seu irmão, o seu primo, o tio e o outro tio. Esperava o rei por terra. Talvez viesse pelo expresso das 5 da tarde ou pela van que trazia as gentes importantes da região. O rei negro esperado por Marreta, na verdade, vinha do Maranhão, da cidade de Tutóia, pois lá fora coroado e purificado na Bazunga sob os auspícios de Mãe Conceição, a filha de indígena com mouro. Talvez o rei-general viesse a cavalo comandando 5 mil homens sob a guia do Cavaleiro de Aruanda . Talvez o rei-sacerdote viesse pelo ar pilotando um X-2 ou flutuando em nuvens amarelas sob a guarda branca de Oxalá. Marreta armou uma rede de tucum no oitão do alpendre e quase dormia, mas Seu Zé o acordou em sonho. 

Na sexta hora Marreta ouviu vozes de cantilenas. Pulou o parapeito e foi à palhoça que servia de garagem para as motocicletas.  Ao longe viu 3 mulheres cobertas de véu dourado que acompanhavam um homem alto de lenço na cabeça. Os quatro se aproximaram da palhoça. Sob as luzes amarelas que vinham do alpendre de sua casa, Marreta foi cumprimentado por aquele rapaz moreno, de olhos esverdeados, de cujo lenço vermelho o cabelo preto e liso descia até os ombros. “É você o rei? As malas estão prontas” – falou Marreta atormentado pela dor da espera. Um tambor ressoou nas matas e um chacoalhar de cabaças retiniu sob o cajueiral para que Marreta soubesse que ali chegara povo encantado. “Não, não o sou. Eu me chamo Ramires. Sou o mensageiro do rei e o trouxe uma mensagem”. De dentro do bolso do blusão branco, Ramires retirou dois pequenos espelhos em forma de triângulos e os deu a Marreta que lhe disse: “Eu não quero presentes nem mensagens, eu quero o rei”. O vento começou a soprar do sul ao norte e Marreta se espantou com uma gargalhada dada por uma das mulheres que acompanhavam Ramires. “O filho-da-puta ainda reclama, Ramires...” – disse a mulher. “Quem é você, mulher do véu?” – pergunta Marreta ainda afobado. “Sou Mariana, protetora do rei. Venho da Praia dos Lençóis só para te dizer que o rei-general resolveu não vir ao teu encontro. Pega tuas malas e parte sozinho.” Marreta chorou. O vento frio chegava novamente. Sua mãe o chamou lá da cozinha. Os tambores soaram na mata e Ramires fez uma sequência de Caroço bailando em roda com as mulheres de véu. Pipoca sai ao terraço e late. E antes que Marreta respondesse à mãe que o chamava para jantar, os seres dançantes sumiram com o vento. O mesmo vento frio da terceira hora que aplacava a alma de Marreta. “Conversava com quem, meu filho? Ouvi vozes cantando...” – perguntou a mãe lhe estendendo o prato de macarrão com o cozido de galinha-caipira. “Era os devotos de Mara Mônica que por aqui passaram”. A sexta hora findava. A mãe resolveu perguntar antes que aqueles olhos marejados resolvessem liberar a primeira lágrima: “O rei não vem, não é?... Vai assim mesmo continuar a viagem para o Rio?” O pai pigarreou lá fora. Marreta pôs os dois espelhos triangulares sobre a mesa. “Sim, mãe, eu vou ao Rio.”  E dirigindo-se ao seu quarto, passando por sua mãe, ela perguntou: “Você vai ao Rio de Janeiro só?” Dentro do quarto, botando sua guia no pescoço: “Não ,mãe, eu não ando só.”

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